Então
eu disse chega! E trouxe a melodia pra dentro de mim como quem importa um filho de
volta pra barriga. E recomecei a sonhar. No meu sonho minha saia girava e meu
corpo lançava seus músculos contra o ar e meu corpo
atravessava o ar, cortando sua transparência complacente. O ar deveria ter cor,
os ares dos meus sonhos tem cores... Meus músculos se dobravam, desdobravam,
encolhiam, flexibilizavam e naquele balé nada
clássico me levavam a um transe extasiado de prazer, som e movimento. Mais
nada. Ninguém mais. Eu e meus músculos, ossos e órgãos. Minha perna
esquerda já
me obedecia e me dava chance de me apoiar inteira nela e debruçar todo meu
peso, esquisitadamente,
demoradamente, bailarinamente. E eu podia saltar, ficar nas pontas dos pés,
abaixar inteira, colar no chão e renascer. Pude me contorcer, retorcer, distorcer
inteira. Eu queria. Abria as pernas e as esticava, tentando
colar o
umbigo no
chão, como sempre gostei de fazer e elas não doíam. Meu
corpo mandava em mim e eu obedecia. Fingi a vida inteira que
eu era uma menininha que dançava balé clássico. Na verdade sou uma louca
performática bailarina contemporânea. Professora de criancinhas numa escola
pública brasileira.

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